O Brasil na Guerra Fiscal entre China e EUA: Ônus e Bônus – Um olhar sobre meio ambiente

* Mariana Delgado Barbieri

As recentes notícias da guerra fiscal entre Estados Unidos e China nos trazem diversos elementos para compreender a atual dinâmica geopolítica global e repensar o papel do Brasil nesse momento. Os EUA, cada vez mais ameaçados pelo crescimento econômico da China, tentam criar empecilhos aptos a frearem a expansão do comércio de produtos chineses, visando fortalecer a produção interna norte-americana, a partir do aumento da taxação de importações.

A divulgação, pelos Estados Unidos, de novas regras tarifárias e aumento nos impostos para importação de diversos produtos fez com que a China retaliasse, tornando clara a intenção de aumentar os impostos de importação de produtos oriundos dos EUA. Apesar de ser uma guerra fiscal entre as duas maiores potências econômicas, o Brasil será diretamente impactado, principalmente o setor agropecuário.

Com as novas taxas para compra da soja e carne norte-americana a produção agropecuária brasileira vislumbra um aumento de volume expressivo na venda desses itens à China, que já é o maior mercado consumidor da produção brasileira. Somado ao câmbio desvalorizado, o produto brasileiro chegará à China em valores muito mais atraentes do que os norte-americanos.

Olhar rapidamente essa situação pode-nos levar a crer que tal guerra fiscal trará somente benefícios ao Brasil: significará aumento no volume de exportações, fortalecimento da parceria com a China, com consequente melhoria do PIB brasileiro, maior volume de mão-de-obra empregada no campo, consolidação do Brasil como maior agroexportador de commodities do mundo. Porém, por trás desses benefícios se esconde um custo extremamente caro para o país: a expansão da agropecuária exportadora implica em aumento desenfreado do desmatamento e avanço da fronteira agrícola na região da Floresta Amazônica.

CASCAVEL/PR – 16-02-2011 – Colheita e plantação de soja no interior de Cascavel. Foto Jonas Oliveira

O avanço da fronteira agrícola causa desmatamento; diversos conflitos socioambientais, com ribeirinhos e população indígenas que habitam a região; ocupação ilegal de terras; brusca redução da biodiversidade da região; alteração no solo e no microclima da região, que afeta toda a produção de chuva que chega à região centro-sul do país. Além desses problemas, temos a intensificação da emissão dos gases de efeito estufa, produto direto do aumento do setor agropecuário e vinculado ao desmatamento, ao uso de agrotóxicos e resultado do processo digestivo dos rebanhos. As emissões dos gases de efeito estufa ocasionam as mudanças climáticas, fenômeno que vem desafiando a humanidade no século XXI.

O último inventário brasileiro de emissões de gases de efeito estufa do Observatório do Clima, de 2016, indica que as mudanças no uso do solo e agropecuário são responsáveis por mais de 51% das emissões brasileiras, situação bem diferente da que ocorre na China, por exemplo, onde o setor energético, baseado ainda hoje no carvão, é o principal emissor.

O desmatamento é duplamente significativo para o caso das mudanças climáticas: além de promover a emissão de GEE ele dizima um importantíssimo sumidouro de carbono, as florestas. Sumidouro de carbono são os elementos da paisagem que absorvem mais carbono do que emitem – é o caso das florestas, solo e águas. Reduzir as áreas de florestas intensifica ainda mais as mudanças climáticas, e no caso da floresta amazônica afeta diretamente outras regiões, como é o caso do sudeste do Brasil, afinal há uma redução na formação de vapor, imprescindível para as chuvas.

A conta a ser paga em virtude das mudanças climáticas será bem cara ao país, mas também ao mundo, afinal as mudanças climáticas não conhecem fronteiras geográficas: o aumento das temperaturas trará inúmeras consequências globais, nas esferas sociais, econômicas, políticas. Afetará a produtividade agrícola, encarecendo as commodities, intensificando a fome e a pobreza nos países do sul global; reduzirá a disponibilidade hídrica e as terras agricultáveis; haverá aumento nos oceanos, inundando diversas regiões do planeta; a poluição matará cada vez maior número de pessoas e se tornará um grave problema de saúde pública, como já ocorre hoje na China, que tem mais de 1 milhão de mortes por ano em decorrência da poluição.

O aumento nas exportações agropecuárias brasileira trará oportunidade e desafios ao país: o duelo entre resultados imediatos e em longo prazo está em jogo. Reduzir o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa é fundamental, entretanto seu resultado será sentido daqui algumas décadas. O imediatismo da vida moderna faz com que nos esqueçamos do futuro e da necessidade de sobrevivência das gerações futuras, em detrimento de um aumento cada vez maior da produção de grãos e carnes, que trazem resultados imediatos à economia brasileira, num momento de grave crise econômica e política do país. 

* Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)  e doutoranda em Ambiente e Sociedade pela mesma universidade.

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