China combina transição e metas ambiciosas

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A China deverá crescer 5,5% em seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, segundo meta apresentada pelo premiê Li Keqiang durante a leitura do Relatório de Trabalho feita na abertura da Assembleia Nacional Popular (ANP) no último sábado, em Beijing. O documento, apresentado todos os anos no início da primavera ao parlamento e à população chinesa, é um dos mais aguardados para que se equalizem os esforços de trabalho do ano. É a partir dele que governos central, subnacionais e entes privados sabem melhor sobre suas tarefas: desta vez é crescer e manter a estabilidade dentro de casa.

A meta de incremento do PIB (os 5,5%) pode ter sido a menor em décadas, como alardeado em diversas notícias no Ocidente. Mas não é fácil de ser atingida e retoma uma tradição do governo, que assumia numericamente os objetivos para a economia desde 2002. Em 2020, com a crise do coronavírus ainda recente, Beijing preferiu não apostar em números – e cresceu 2,3% – e em 2021 disse que cresceria acima de 6%, sem cravar um resultado, apostando num incremento considerado fácil pelos analistas.

Hoje o cenário é outro. Ante tanta incerteza no palco global (o que parece um filme repetido a cada novo ano, mas a guerra assombra ainda mais o horizonte pelas perdas humanas e calamidade para as populações) as tarefas da China são gigantes. A agência de notícias Xinhua fez questão de dizer que a meta, inclusive, era maior do que as previsões de organismos internacionais, como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). Sinal de que a China está de olho no que dizem sobre ela, e também confiante no seu próprio destino.

Agora, um dado é importante de ser destacado. A China está falando de um PIB que atingiu US$ 17,7 trilhões em 2021, quando cresceu 8,1%. É o segundo do mundo, atrás do norte-americano, que no ano passado foi de US$ 22,99 trilhões. Para referência, neste ranking, o Brasil aparece em 14º, com US$ 1,6 trilhão.

No relatório de Li, o último antes do 20º Congresso do Partido Comunista da China, que deverá ocorrer em novembro e validar o nome de Xi Jinping para presidente por mais um mandato – o que só será referendado na ANP de 2023 – outros objetivos foram elencados, como a criação de 11 milhões de postos de trabalho, desemprego não superior a 5,5%, aumento do índice de preços ao consumidor de até 3%, produção de grãos de 650 milhões de toneladas e cobertura vacinal contra a Covid-19 de 85%.

Em relação à Covid, a China não parece relaxar a política de zero tolerância com a doença, e indicou que irá aumentar o orçamento para pesquisas de novas vacinas, novos medicamentos e para a pesquisa sobre novas variantes. Uma aposta pessoal, aliás, é que a China não abra suas fronteiras até que ocorra o 20º Congresso. Ou seja, novembro. Hoje, só alguns casos de visitantes especiais podem ingressar no país.

O relatório de trabalho de Li também enfocou o direito das mulheres, das crianças e dos idosos. Enfoques que tentam barrar uma transição indesejada em curso: o envelhecimento da população. O que a China quer hoje é que as famílias urbanas tenham até três filhos – e muitas preferem ter um ou nenhum ante custos de saúde, habitação e educação e falta de uma rede de apoio para as mães. O governo está atento, mas a sociedade ainda permanece em compasso de espera.

Inovar para crescer

No período de transição chinês, a inovação aparece como um dos motores de crescimento. No relatório de trabalho, Li destacou com Pesquisa e Desenvolvimento receberam uma fatia de 2,44% do PIB em 2021, bem maior que os 1,98% de 2012. O ano foi o último antes da Era Xi. E para enfatizar que não há medo de correção de rotas e que efetivamente as coisas mudam na China, outra vez a Xinhua fez um texto lembrando a última década econômica.

Quando Xi assumiu, inaugurava-se ali o período de crescimento mais baixo e sustentável, batizado como o novo normal. É deste período que surgem políticas que, segundo Beijing, mostraram que com resiliência e sustentabilidade mesmo com dificuldades houve transformações estruturais na economia. Quem acompanha a China deve lembrar da reforma pelo lado da oferta, que atingiram principalmente indústrias altamente poluidoras ou pouco produtivas de aço e carvão, mas que buscava dar conta também de acabar com a super capacidade da manufatura chinesa.

O texto lembra que o objetivo desde 2013 era buscar uma economia inovadora, coordenada, verde e que buscasse um crescimento compartilhado por diferentes setores. E também elenca áreas que receberam mais aportes para P&D: tecnologia da informação, manufatura de ponta, biotecnologia, economia digital, novos materiais e economia do mar. A retrospectiva é interessante para lembrar os desafios da China na última década. Mas nem de perto são tão difíceis quanto os atuais: uma guerra envolvendo vizinhos num momento ainda pandêmico. Tema, aliás, do próximo texto.


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