China: um novo horizonte para a América Central

Sergio Rivero* 

Primeiro foi a Costa Rica em 2007 e logo seguiram o Panamá, República Dominicana e recentemente El Salvador. Pouco a pouco Taiwan vem perdendo aliados na América Central e no Caribe, região que historicamente tem apoiado a ilha de Formosa em sua tentativa de reconhecimento internacional.

No entanto, com a recente decisão do presidente Salvador Sánchez Cerén, já são três os países aliados que Taipei perdeu no que vai do ano de 2018, e o quinto desde que presidente com tendências pró-independência Tsai Ing-wen, tomou posse em 2016.

Belize, Guatemala, Honduras e Nicarágua continuarão com essa tendência?

A ameaça chinesa

A aproximação com a América Central e o Caribe tem sido um desafio para Pequim. A dominação dos Estados Unidos na região tem sido perpetuada através da doutrina Monroe. Assim, sem timidez, foi apontado pelo secretário de Estado Rex Tillerson durante uma conferência de imprensa no Texas, afirmando que tal política é “tão relevante hoje como quando foi escrita”. Trata-se de uma política externa ultrapassada adotada pelo governo Trump para limitar nossas relações diplomáticas com a China, chamando-a de neocolonialista e promovendo uma “teoria da ameaça chinesa” sem fundamento.

Por sua vez, o senador republicano Marco Rubio expressou sua ira pela decisão salvadorenha de romper com Taiwan com um tweet agressivo, em que ameaçou o governo salvadorenho com retirar a cooperação dos EUA ao país centro-americano.

Junto com o senador republicano Gary Gardner, eles estão promovendo uma emenda para excluir El Salvador do programa da Aliança para a Prosperidade, um plano que também inclui Guatemala e Honduras, e que surge como resultado da crise das crianças migrantes em 2014, e cujo principal objetivo é criar oportunidades econômicas para melhorar a qualidade de vida dos habitantes desses países.

No entanto, o pragmatismo é o nome do atual jogo diplomático e nós, centro-americanos, devemos deixar de lado os “ismos” ideológicos que nos impuseram desde os Estados Unidos e outras instâncias multilaterais. Se por muitos anos, a Costa Rica foi o único país da América Central a manter relações diplomáticas com a República Popular da China, hoje a imagem é diferente.

Os Estados Unidos não podem impedir que mais países da América Central busquem aliar-se à China, no então, o quando e o como dependerá da situação política interna de cada país. Tanto a Nicarágua quanto Honduras estão passando por momentos políticos complexos.

Porem, na Guatemala os lobbies empresariais já mostraram interesse em aprofundar ainda mais as relações comerciais com o dragão asiático e estão conscientes de que este objetivo depende da decisão imperante de romper com Taiwan.

Oportunidade histórica

Após a ruptura das relações entre El Salvador e Taiwan, apenas os embaixadores da Nicarágua e Honduras em Taipei reafirmaram o compromisso de seus respectivos governos de manter relações diplomáticas com Taiwan. Guatemala e Belize se mantiveram em silencio e evitaram se pronunciar publicamente sobre o assunto.

Por muitos anos, a China e Taiwan coexistiram no istmo centro-americano, com uma clara hegemonia taiwanesa. Lembre-se de que Taipei é um observador externo membro do Sistema de Integração Centro-Americana (SICA) e do Parlamento Centro-Americano, e é também um parceiro extra-regional do Banco Centro-Americano de Integração (BCIE) desde 1992.

No entanto, empresas chinesas, como a Sinohidro, trabalham em projetos de investimento em energia renovável em Honduras e a iniciativa “Cinturão e Rota”, liderada pelo presidente Xi Jinping, chegará à região para promover o desenvolvimento da infraestrutura e a interconectividade com a Ásia. Já é possível observar isso, por exemplo, na proposta chinesa de criar um trem de alta velocidade da Cidade do Panamá até a fronteira com a Costa Rica.

No caso de instâncias como o SICA, 50% de seus membros mantêm relações diplomáticas com a República Popular da China. Diante dessa situação, os países da América Central e a República Dominicana serão forçados a iniciar conversas sobre o nível e/ou a relevância do envolvimento taiwanês nas instituições supranacionais do istmo.

Mais cedo ou mais tarde, à medida que outros países da região aderirem à política de “uma China só”, a América Central deverá definir uma estratégia geopolítica propositiva com Pequim, independente das pressões dos EUA para impedir que a China desembarque na região que sempre considerou como seu quintal.

O apoio do setor empresarial, ávido por mais e melhores relações comerciais com o motor econômico da Ásia, é essencial para entender como tirar proveito do relacionamento comercial com a China e definir indústrias estratégicas para atração de investimentos e cooperação técnica para empreendedores da América Central.

Assim, para criar uma agenda multilateral de comércio e cooperação, é necessário um diálogo e uma leitura ampla da realidade política internacional, uma conversa sincera que deixe de lado os estigmas e procure um terreno de trabalho em comum: transporte e interconectividade, infraestrutura, mudanças climáticas, energias limpas, planejamento urbano, cidades inteligentes e avanços tecnológicos, temas em que a China é referência mundial.

* Sergio Rivero, cientista político especializado em economia chinesa, com mestrado em economia pela Universidade Renmin, China.

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