As relações entre a China e a América Latina ante o G20

Patrício Giusto*

As relações entre a China e a América Latina são definitivamente estratégicas para ambos os lados e estão em plena expansão, ante o forte momento que experimentam desde que Xi Jinping chegou ao poder, em 2012.

Historicamente, as relações sino-latino-americanas estiveram ligadas à importância do comércio exterior, dada por uma complementaridade natural. O relacionamento foi impulsionado principalmente pela forte demanda de matérias-primas pela China, como resultado da expansão econômica do processo de Reforma e Abertura, iniciado em 1978.

A China tornou-se o primeiro ou segundo parceiro comercial e a principal fonte de investimento para a maioria dos países latino-americanos, especialmente para os localizados na América do Sul. Mais recentemente, outros campos de cooperação foram adicionados ao comércio e ao investimento, como finanças, colaboração científica e tecnológica, cultura, esportes e turismo, entre outros.

A visita do presidente Xi Jinping à Argentina para a cúpula do G20 é um evento histórico. Espera-se um forte protagonismo da China na reunião, num contexto de incerteza global. O mundo inteiro estará prestando atenção ao discurso de Xi Jinping. Há também uma grande expectativa sobre a possibilidade de que a China e os Estados Unidos possam chegar a um ponto de partida para uma solução nas tensões comerciais. O G20 oferece um cenário ideal para essas discussões.

Por outro lado, após da cúpula do G20, o Presidente Xi fará uma visita de Estado à Argentina. Espera-se que sejam divulgados importantes comunicados que ampliarão as relações bilaterais em termos de comércio, investimento, finanças, bem como nas áreas cultural, cooperação educacional e esportes. Os dois países assinaram uma parceria estratégica integral, em 2014, que com certeza será significativamente fortalecida após a visita de Xi.

América Latina, “extensão natural” da Rota da Seda Marítima do Século XXI

Em 2016, o presidente Xi definiu a América Latina como a “extensão natural” da Rota da Seda Marítima do Século XXI. A América Latina já está recebendo benefícios da expansão dos fluxos de investimento e comércio com a China, no âmbito da “Belt and Road Initiative”. Isso pode ser observado com mais clareza em alguns países da costa do Oceano Pacífico, como o Chile e o Peru. Além de ter a vantagem do acesso direto ao Pacífico, esses países estabeleceram com sucesso acordos de livre comércio com a China, que provaram ser mutuamente benéficos.

A Argentina, apesar de estar regionalmente mais isolada dentro do Mercosul, também se beneficiou dos crescentes fluxos de comércio e investimento. A China abriu seu mercado para novos produtos, como carne, e está fazendo importantes investimentos em energia, minerais e transporte, entre outros setores. Outra área a ser considerada na cooperação é o intercâmbio financeiro através dos swaps de moedas. Já existe o equivalente a US$ 19,5 milhões de RMB chineses no Banco Central da Argentina. Além disso, a China também ofereceu apoio total à Argentina em suas negociações com o Fundo Monetário Internacional.

Voltando ao tema do comércio, a área com maior potencial para a América Latina é, sem dúvida, a indústria agroalimentar. A China representará a maior demanda mundial por alimentos nas próximas décadas. Nenhuma outra região do mundo, exceto parcialmente a África, tem o potencial da América Latina em termos de fornecimento de alimentos.

Carnes, produtos lácteos e peixes estão se tornando os alimentos mais preciosos e necessários. Também é necessário mencionar frutas finas e outros produtos elaborados, como os vinhos, que aparecem no topo das preferências dos consumidores chineses e asiáticos, em geral. Também não devemos esquecer os derivados da soja e do trigo, complexos industriais que muitos países da região já tem plenamente desenvolvidos.

Novas áreas de cooperação além da economia

As relações bilaterais entre a China e a América Latina foram fortalecidas por um aumento significativo nos intercâmbios políticos de alto nível, bem como nos intercâmbios acadêmicos e culturais. O Presidente Xi Jinping colocou ênfase especial em dar impulso para exibir a cultura milenar chinesa ao mundo. Ao mesmo tempo, os programas e bolsas de estudo destinados a promover a participação de professores e estudantes estrangeiros em universidades chinesas aumentaram significativamente nos últimos anos.

Em paralelo, o número de pessoas que estudam a língua chinesa em nossa região cresceu exponencialmente. Os Institutos Confúcio são os principais centros de estudo da língua e da cultura chinesas, embora as instituições privadas também estejam crescendo devido à forte demanda dos estudantes. Sem dúvida, essas trocas consolidaram-se como um novo pilar estratégico das relações sino-latino-americanas.

América Latina, os Estados Unidos e a questão de Taiwan

Outro aspecto crucial das relações entre a China e a América Latina é a questão de Taiwan. Nove dos 17 aliados diplomáticos de Taiwan em todo o mundo estão localizados na América Latina. Recentemente, o Panamá, a República Dominicana e El Salvador romperam laços com Taiwan. Não foram decisões surpreendentes, uma vez que esses pequenos países estavam encontrando dificuldades para permanecer isolados dos grandes fluxos de cooperação econômica chinesa na região. Portanto, é muito provável que Taiwan continue perdendo aliados no futuro próximo.

Os Estados Unidos reagiram ameaçadoramente contra a China e seus novos parceiros. O presidente Donald Trump interpretou a perda sucessiva dos aliados de Taiwan como um perigoso avanço chinês na região. A verdade é que os Estados Unidos continuam retrocedendo na região, com Trump falando mais em construir muros para conter os imigrantes centro-americanos do que expandir a cooperação com os países pobres que são vizinhos dos EUA. A China, por outro lado, está oferecendo alternativas atraentes para seus novos parceiros na região.

Os Estados Unidos aumentaram notavelmente suas críticas ao progresso chinês na região. Porém, quais são as alternativas de cooperação que os EUA propõem? Por enquanto, muito poucas. Parece que as únicas questões que preocupam ao governo dos EUA em relação à região são aquelas relacionadas à defesa e segurança. Isso faz parte da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, lançada no ano passado. A velha narrativa da “ameaça chinesa”, agora ligada aos interesses de segurança nacional dos EUA, tem ressuscitado com Trump.

Para concluir, as perspetivas para as relações entre a China e os países da América Latina são muito promissoras. Apesar do impulso isolacionista e da posição ameaçadora dos Estados Unidos, a próxima cúpula do G20 certamente será um sucesso completo. Como aconteceu com a Expo Internacional de Importações da China, realizada em Shanghai, a China tentará se mostrar mais uma vez como o novo farol global em termos de globalização econômica e multilateralismo. Assim, o G20 será um cenário favorável para a China em termos de continuar expandindo sua cooperação com a América Latina.

Patricio Giusto é doutorando em Estudos Internacionais (Universidade Di Tella), tem mestrado em Estudos da China (Universidade de Zhejiang) e em Políticas Públicas (Instituto Latino-americano de Ciências Sociais). É rofessor Associado da Pontifícia Universidade Católica da Argentina e professor visitante na Universidade de Relações Exteriores da China. Diretor-executivo do Observatório das Relações Sino-Argentinas e membro do Conselho de Relações Internacionais da Argentina.

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