Economia digital é sensação numa China com 751 milhões de usuários conectados

Pagamento digital é febre na China/Agência Xinhua

China vive a era da economia compartilhada e das transações comerciais sem a necessidade de dinheiro em papel. O celular é o elemento principal desta realidade, uma extensão do cérebro – onde se guardam as memórias, se compartilham os registros efêmeros e se resolvem as necessidades mais básicas do cotidiano. E até mesmo aquelas nem tão básicas assim. É tão central no dia-a-dia chinês que não se vê um dono de smartphone que não tenha consigo também um carregador portátil de bateria. Impossível desconectar.

A febre digital já atinge 751 milhões de pessoas – mais do que toda a população da Europa, segundo dados do  Centro de Rede de Informação da Internet da China (CNNIC, em inglês) divulgados na última sexta-feira. Destes usuários, 724 milhões, ou 96,3%, estão conectados via celular. Daí ser tão aparente o uso.

Ainda que a penetração da internet possa ser modesta, pois atinge 54,3% da população, bem menos do que os 90% registrados nos vizinhos Coreia do Sul e Japão, o uso do celular salta aos olhos. Foi a primeira mudança que percebi ao pisar na capital, há cinco dias.

Morei em Beijing de 2007 a 2013. Jornalista gaúcha, vim ao país para trabalhar na agência de notícias Xinhua. Em 2010, dei início à consultoria em comunicação e informação Radar China. Atuo até hoje na empresa ao lado do meu sócio, Sun Lidong, num trabalho dedicado a estreitar os laços culturais e facilitar a comunicação entre chineses e brasileiros. Até outubro, depois de três anos e nove meses, é a partir da China que escreverei e trabalharei, contando também no Jornal do Comércio um pouco da realidade da segunda maior economia do mundo, cujo crescimento em 2017 deve fechar em torno dos 7%.

A economia digital tem participação robusta.  Só no ano passado, cresceu 18,9%, atingindo 22,6 trilhões de yuans (US$ 3,35 trilhões), segundo a Academia de Informação e Tecnologia de Comunicações da China. A expansão foi muito mais rápida que a da economia como um todo, que cresceu 6,7% em 2016. Segundo o governo, o digital representou 30,3% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2016. Considerando seus efeitos indiretos, a contribuição chegou a 69,9%.

O governo chinês entende por economia digital as transações que têm como base tecnologia de computação e que compreende modelos de negócios tais como comércio eletrônico, computação em nuvem e serviços de pagamentos. Até 2030, acredita Beijing, representará metade do PIB do país.

No primeiro semestre deste ano, o setor que mais cresceu foi o de entrega de alimentos – com 274 milhões de usuários, um incremento de 41,4% ante dezembro de 2016.

Mas nas ruas, são dois os serviços mais percebidos: o primeiro é o de pagamento móvel, que já agrega 502 milhões de usuários. Da banca de revista à compra de passagens aéreas para as férias no exterior, tudo é feito via aplicativos. Os dois principais, WeChatWallet e AliPay sequer são de bancos tradicionais, o que aumenta as fronteiras dos serviços financeiros e de que empresas os oferecem. No ano passado, está serviços, combinados a outros, foram responsáveis pela movimentação de 38 trilhões de yuans (US$ 5,5 trilhões), 50 vezes mais do que os US$ 112 bilhões transacionados em aplicativos semelhantes nos Estados Unidos.

O segundo serviço que salta aos olhos são as bicicletas compartilhadas. Em um modelo em que o ciclista escolhe a bike estacionada nos diversos bicicletários espalhados pela cidade – nas saídas de metrô, entradas de condomínios ou de supermercados, por exemplo – e sem precisar devolver a estações fixas, o serviço é literalmente uma mão na roda. Basta cadastro em um aplicativo e, com um código QR, destravar a bicicleta.

Mais de 10 milhões de bicicletas compartilhadas estão nas ruas das cidades chinesas, operadas por mais de 30 empresas. A Mobike e a Ofo respondem por mais de 90% do mercado. De acordo com o Centro de Pesquisa do Comércio Eletrônico da China, o número de usuários no ano passado atingiu 18,86 milhões.

Neste emaranhado de números, outro vale destaque. Em 2016, o volume de comércio da economia do compartilhamento – uma parte da economia digital na China – dobrou em relação ao ano anterior para cerca de 3,5 bilhões de yuans (US$ 516 bilhões), segundo o Centro de Informação do Estado.

China continua, claro, mantendo o pé firme na aceleração da infraestrutura. Quando saí de Beijing, em 2013, eram 17 linhas de metrô. Hoje, são 19 – e algumas das anteriores, ganharam extensões, num sistema que atualmente totaliza 574 quilômetros e transporta, em dias de pico, quase 13 milhões de pessoas ao dia. Em todo o país, são 28 cidades com serviço de metrô. Mas o país se orgulha mesmo é de ter o sistema mais extenso de trens rápidos do mundo, com mais de 60% das ferrovias deste tipo em operação no planeta.

Todo esse processo é acompanhado de questões que envolvem seguridade social, trabalho, educação, direitos. E é um pouco desta realidade que veremos juntos por aqui nos próximos dois meses. Sem descuidar, claro, das relações com o Brasil e das oportunidades que o país terá. O momento é excelente: de 3 a 5 de setembro, a China recebe a Cúpula dos BRICS, o grupo de países que reúne, além de China e Brasil, Rússia, Índia e África do Sul. Às vésperas, de 1º a 2 de setembro, Beijing recebe o fórum Brazil+ChinaChallenge, uma iniciativa dos estudantes de graduação e pós-graduação brasileiros no exterior do BRASA Ásia junto à Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Yenching Academy, ligada à Universidade de Peking, a mais importante da China. O encontro vai reunir acadêmicos, políticos e executivos dos dois países, em dois dias de debate sobre desenvolvimento. Tema para debate não faltará por aqui.

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