Evergrande reflete ações para reduzir riscos sistêmicos na China

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Em webinar realizado pelo CEBC, especialistas dizem que agenda de Pequim levará a menor crescimento

As turbulências geradas pela Evergrande resultam em grande parte de ações do próprio governo chinês para reduzir riscos sistêmicos na economia, entre os quais está o elevado grau de endividamento, especialmente no setor de construção civil. Essa foi uma das conclusões de webinar promovido nesta terça-feira, 5, pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) em parceria com o CEBRI, do qual participaram Fabiana D’Atri, economista do Bradesco, Marcos Caramuru, ex-embaixador do Brasil na China, e Sérgio Quadros, ex-gerente do Banco do Brasil em Xangai. A moderação foi de Cláudia Trevisan, diretora executiva do CEBC.

A grande dúvida é se o governo chinês terá disposição política para tolerar um menor grau de crescimento no curto prazo em favor de uma expansão mais sustentável no longo prazo. Além do setor imobiliário, Pequim lançou ofensivas regulatórias contra grandes e bilionárias empresas de tecnologia e o lucrativo setor de cursinhos pré-vestibular, além de exigir cortes no consumo de energia para o atingimento de metas ambientais.

“Parece que todas essas medidas estão relacionadas à qualidade e não à quantidade: um processo de transição que passa necessariamente por um menor ritmo de crescimento”, disse D’Atri. Mas o problema é que a China parece estar abrindo mão de alguns vetores de crescimento, como energia poluentes e o setor imobiliário, sem ter motores substitutos no momento, ressaltou.

Para Caramuru, não há dúvida de que a agenda está relacionada ao calendário político da China, que está a um ano do Congresso do Partido Comunista que quase certamente reconduzirá Xi Jinping para um terceiro mandato como presidente do país. “O crescimento é o grande produto do Partido Comunista da China e fazer reformas implica basicamente reduzir as taxas de crescimento e reduzir as expectativas de crescimento que estão na cabeça das pessoas”, observou o embaixador.

Apesar de a dívida da Evergrande ser de US$ 305 bilhões, o equivalente a 2% do PIB chinês, Quadros disse não ver risco sistêmico para o sistema financeiro do país, que possui ativos estimados em US$ 46 trilhões. Segundo ele, a dívida da incorporadora tem a seguinte composição: fornecedores (32%), empréstimos bancários (20%), comercial papers (13%), pagamentos antecipados de clientes (8%) e bonds (6%). O impacto da turbulência será doméstico e não se alastrará ao redor do mundo, afirmou.

O principal impacto da crise para o Brasil se dá por meio do comércio, principalmente com a queda no preço do minério de ferro e de outras commodities destinadas à construção, disse D’Atri. Mas, segundo ela, as exportações do agronegócio poderão ser beneficiadas caso o governo chinês tenha sucesso em sua agenda de estimular o consumo doméstico, o que dará mais poder de compra à população e aumentará sua demanda por alimentos.

Frases dos palestrantes:

Fabiana D’Atri

A China no ritmo que vinha, não se sustenta, então vê-se um movimento de colocar a sustentabilidade e o bem-estar antes do crescimento. Em resumo, parece que todas essas medidas estão relacionadas à qualidade e não à quantidade: um processo de transição que passa necessariamente por um menor ritmo de crescimento. A China neste momento abre mão de alguns vetores de crescimento, como por exemplo alguns setores de energia poluentes, e não tem uma alternativa pronta em mãos. Ela abre mão e diz que quer reduzir a importância do setor imobiliário, sem ter outro imediato.

Marcos Caramuru

O que está acontecendo agora é que as crises vão criar as oportunidades para a reforma. O que deve tornar a China mais suscetível a tolerar taxas de crescimento mais baixas e ver oportunidades de monitorar a alavancagem de alguns setores estratégicos, como a construção civil. Mas não acha que deve ter ambiente suficiente para enfrentar as reformas com a energia necessária. Deve haver um momento inicial de busca pelas reformas, mas o que pesa é que quanto mais se adia as reformas, maior vai ser o preço a pagar adiante. E aí vai sempre haver um questionamento para onde vai a China.

Sérgio Quadros

A exposição da crise da Evergrande é interna e não deve se alastrar pelo mundo. A empresa tem entre 1,3 mil e 1,8 mil projetos dentro da China. A retração do mercado imobiliário tem como objetivo conter riscos sistêmicos e as consequências para o mercado financeiro devem ser baixas ­– ainda que o impacto no crescimento econômico deva ser maior, com redução de projeções econômicas para 2021 e 2022.

Assista ao evento na íntegra: https://youtu.be/9HTB-DRfgSI

Imagem: Essnglkoerm Huong/Creative Commons.


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