Ideologia e realidade: lições do pragmatismo

Na última semana, a viagem à China de parlamentares do PSL, partido do atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e de outro deputado do DEM, sigla que disputa a presidência da Câmara para o próximo biênio,  provocou controvérsia nas redes sociais de apoio ao governo e aos parlamentares. O convite ao PSL, que partiu da Embaixada da China ainda em novembro do ano passado, foi endereçado à Executiva do partido, que preferiu não aceitar. Com o objetivo de estabelecer contatos com representantes próximos ao então futuro governo, o roteiro de viagem poderia ser adaptado a partir de setores de interesses discutidos entre ambas as partes. Algumas semanas depois, deputados federais a serem empossados em 1º de fevereiro decidiram aceitar a oferta.

O convite é praxe da diplomacia chinesa, já feito a parlamentares de legislaturas anteriores e membros de partido ou de governos passados no Brasil. E também no mundo. Os supostos potenciais atritos na relação entre Brasil e China não devem ter pesado na decisão do convite. Especula-se que o governo Bolsonaro possa pender para um alinhamento com os Estados Unidos, exatamente um momento em que o país norte-americano vive uma guerra comercial com a China. Nos ritos diplomáticos não se percebem mudanças, embora algumas declarações de integrantes do governo e do próprio presidente possam gerar dúvidas se poderão crescer barreiras à relação sino-brasileira ou não. A aposta é no pragmatismo. De ambos os lados.

Na semana em que os novos deputados, todos auto-declarados influenciadores (antes de serem eleitos, os parlamentares estreantes eram ativistas digitais, empreendedores com canais no youtube e colunistas sociais, entre outras profissões), o atual embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, era recebido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Em Brasília, tratavam de ampliar as trocas em setores como agricultura, tecnologia, energia e mineração, entre outros. Já na capital chinesa, a tour provocou críticas entre representantes do bolsonarismo.

A tônica das críticas, que partiram do astrólogo Olavo de Carvalho, girava em torno do caráter do governo chinês, cuja raiz político-econômica é calcada no marxismo e que hoje resulta no socialismo com características chinesas, como o próprio Estado chinês se define. Para Carvalho, são comunistas ditatoriais que, a partir de suas empresas, amealhariam dados de todos os brasileiros e poriam a perigo de morte eventuais chineses dissidentes pelo Brasil.

A contenda, pontuada apenas por questões ideológicas crivadas dos mais variados preconceitos e pouco apego à realidade dos fatos, gerou episódios no mínimo embaraçosos nas redes sociais dos deputados-influenciadores. Expôs pouca coordenação política (o próprio Bolsonaro afirmou não ter tomado conhecimento prévio da viagem), ameaças de processos por parte dos integrantes brasileiros da comitiva ao astrólogo e debates tão rasos quanto a terra plana. Na prática, antecipou o caráter de muitas das discussões dentro do Congresso a partir de fevereiro. E já que o tema é prática e pragmatismo, também mostrou que os integrantes da comitiva à China estavam mesmo é dispostos a fazerem contatos com os chineses e suas empresas a fim de as representarem no país sul-americano. Se como lobistas ou como representantes comerciais, essa é outra questão. Empreendedorismo não falta no grupo.

Do lado chinês, o caráter pragmático de manter as boas relações com os representantes de Legislativos e Executivos mundo afora pode ser avaliado, neste caso, como ousado, tendo em vista a imaturidade política dos novatos no Parlamento. O convite expôs a imagem do país às redes sociais brasileiras, um território em que pouco se debate China (não é de hoje que não temos sequer um correspondente brasileiro na China, mas desde 2015). É bem provável que em poucas semanas ninguém mais fale sobre o tema e que o pragmatismo acabe por ditar a ordem da relação, que neste ano comemora 45 anos de laços diplomáticos (a retomada foi assinada no governo militar de Ernesto Geisel, em 1974).  De qualquer forma, a primeira excursão ao exterior dos futuros parlamentares do PSL pode ser avaliada mais como desastrosa do que outra coisa. Há um desgaste entre colegas de partido, militância e seguidores e entre diferentes representantes do governo. 

Agora, quem está no exterior pela primeira vez desde que assumiu é o próprio presidente brasileiro. Bolsonaro está na Suíça para o Fórum Econômico Mundial. Estava previsto um encontro bilateral entre ele e o presidente Xi Jinping, mas o mandatário chinês não irá mais a Davos. Por conta desta ausência e também a de Donald Trump e de líderes europeus como Emmanuel Macron, Bolsonaro deverá ganhar mais holofotes. Logo na chegada, o presidente brasileiro avisou que fará um discurso curto e objetivo que foi corrigido por seus ministros.

Por lá, temas como ambiente, democracia, mídia, integração econômica e um futuro compartilhado estão em voga, apontados como questões de ordem prática e urgente para a obtenção do desenvolvimento sustentado do planeta. Algum astrólogo ou seus discípulos que lessem o que está escrito na página oficial do fórum (o link está aqui, para quem estiver curioso) poderiam facilmente chegar à conclusão de que Davos é capital do marxismo cultural.

Na comitiva presidencial, veremos pragmatismo ou ideologia?

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