Integração pela comunicação

Por Paula Coruja*

Encontro que reuniu representantes da imprensa do BRICS, em São Paulo, elaborou plano de ação para melhorar a colaboração entre os países

Antecedendo a 11º Cúpula do BRICS, nos próximos dias 13 e 14 de novembro de 2019, no Palácio Itamaraty, em Brasília, cerca de 50 representantes de veículos de imprensa, de empresas estatais, privadas e independentes, dos cinco países que compõem o bloco se reuniram durante dois em São Paulo (30 e 31/10) para discutir a cooperação e integração desses territórios através da comunicação. He Ping, editor-chefe da Agência de Notícias Xinhua e presidente-executivo do Fórum de Imprensa do BRICS, liderou a agenda, destacando que a mídia deve ter um papel de ponte entre os cidadãos e as instituições e salientou que é necessário construir alternativas colaborativas, tecnológicas e de conteúdo, entre esses países emergentes.

O acrônimo criado pelo economista Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, para designar Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente, África do Sul como bloco de países emergentes abarca da mesma forma a grandeza e os desafios econômicos e sociais desses países. Responsáveis por 40% da população mundial, contribuíram com 50% do crescimento do PIB do planeta nos últimos anos e responsáveis por 23% da economia global, como destacou Chen Peijie, cônsul geral da China em São Paulo na abertura das discussões. 

O Brasil completou 45 anos de relações diplomáticas com a China em 2019. Para dar uma ideia do crescimento da importância econômica dessa relação, 10 minutos de comércio bilateral hoje equivalem a um ano do que era negociado entre os países em 1974. “Amizade é como o vinho, melhora com os anos”, brincou He Ping, salientando que bilateralmente a China já trabalha com todos os integrantes para aprofundar intercâmbios.

O presidente-executivo do Fórum de Imprensa também demarcou quatro pontos principais em que é preciso agir em conjunto, multilateralmente: na difusão das perspectivas dos países do BRICS, contar histórias que sirvam como uma janela de entendimento mútuo, que a mídia digital acompanhe as mudanças culturais, aumento das áreas de intercâmbio e ajuda mútuas. 

Dimitri Gornostaev, editor-chefe da agência de notícias russa Sputnik, Dimitri Gornostaev, foi incisivo ao falar da urgência em liderar as narrativas sobre os países. “Hoje recebemos informação sobre o BRICS de locais de fora do bloco”, disse e salientou que o combate à desinformação (as conhecidas “fake news”), deve ser pragmático e sugeriu a criação de um banco de dados e um serviço de “fact checking” (checagem de fatos em jornalismo) conjunto sobre os países. 

Aleksander Gorelik, editor do único canal de televisão dedicado ao bloco, a TV BRICS, da Rússia, ressaltou a necessidade de criar uma narrativa estratégica. “É possibilitar o desenvolvimento em conjunto do que realmente queremos do bloco”, disse. O presidente do grupo CMA do Brasil, José Juan Sanchez, observou a necessidade de independência dos veículos de imprensa desses países, que mesmo tendo questões políticas distintas podem encontrar pontos de convergência.

Para Shobhan Saxena, do jornal The Hindu, e Moushumi Das Gupta, do The Print, ambas publicações indianas, é preciso abrir espaço para histórias que contem a cultura dos países, para além dos estereótipos e noticiário econômico. “Na Índia, por exemplo, as informações sobre África do Sul e Sul estão relegadas às páginas de esporte. Os cinco dedos que representam cada um dos países só conseguirão dar um ‘soco’ e mostrar força se unirem”, concluiu Moushumi. 

Luftia Vajej, executiva do Independent Media, da África do Sul, única mulher na cúpula de negociações, salientou a necessidade de ações concretas, exemplificando com o trabalho que já é feito em seu país. “As mídias sociais hoje impactam os modos de consumo e circulação da informação e devem servir a nosso favor em mostrar nossos avanços sociais e na execução dos nos planos conjuntos”, complementou.  

Apesar da insistência de representantes de todos os países de uma necessidade de integração, Leonardo Attuch, do portal 247, expôs que esse desenvolvimento no contexto político brasileiro pode ser travado pelo discurso antiglobalismo do Itamaraty. “O governo brasileiro faz declarações simpáticas ao BRICS formalmente, mas mostra outro alinhamento na prática”, disse. 

Ao fim do evento, Sanchez apresentou um plano de ação conjunto para 2019-2020, elaborado durante o fórum. Entre os principais pontos está promoção de fórum permanente entre a imprensa dos países para colaboração ativa, e aprofundamento do intercâmbio e cooperação, principalmente através de novas mídias. A colaboração em reportagens, a fim de dar voz conjunta, também foi pontuada, acompanhada da iniciativa da criação de uma plataforma unificada de imprensa do bloco e a contenção de fake news. O 4º Fórum de Imprensa do BRICS foi promovido pela Agência de Notícias Xinhua e grupo CMA.

BRICS em fotos

O trabalho dos fotojornalistas de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul está em destaque na 3º Exposição Conjunta de Fotos das Mídias do BRICS, inaugurada dentro da programação do fórum, no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Composta por 100 imagens de veículos de imprensa dos países que compõem o bloco, a exibição é parte das iniciativas para aproximação entre esses países através da imprensa. Quem quiser visitar, não há cobrança de ingresso, e a exposição está aberta até o dia 10 de julho.

* Paula Coruja é Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Jornalista, trabalhou na Xinhua, em Beijing, de 2007 a 2009.

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