A influência chinesa global está longe de imposição

A China tem ampliado esforços para que o mundo conheça melhor o que se pensa, produz, decide e almeja dentro do país a partir de uma tríade que, se não inédita, é recente para os próprios chineses como vetores de disseminação de suas mensagens: produtos culturais, academia e imprensa. Faz isso cada vez com mais desenvoltura e com laços consistentes com organismos e profissionais estrangeiros, muitas vezes produzindo conteúdo em idiomas que não só o mandarim.

Tal processo tem um nome no jargão acadêmico, cunhado pelo economista Joseph Nye: soft power. Em linhas gerais, é um contraponto ao hard power das conquistas de poder internacional por vias mais duras, tais quais conflitos armados, para usar um exemplo extremo. O soft power entrou no radar chinês ainda no governo do presidente Hu Jintao (2003-2013), mas ganhou fôlego mesmo com o atual mandatário, Xi Jinping. A China não quer só ser a segunda economia do mundo – como se fosse pouco – mas quer dar a conhecer ao mundo seus processos e, na esteira disso, promover laços mais cordiais ou sobre bases menos resistentes.

 

É fato que o poderio chinês assusta muita gente, resultado de, entre outros fatores, um crescimento à base de baixos salários e danos ambientais, o que provocou uma onda exportadora muitas vezes de produtos de baixa qualidade no início da indústria leve chinesa (isso no início dos anos 1980, estendendo-se até o início dos 2000) e cunhou termos, para usar a realidade brasileira, de produtos “xing ling” além de críticas ao país asiático por promover a desindustrialização em outras paragens (de novo, o Brasil aparece como exemplo). Para culminar, o sistema político chinês é pouco estudado – e muito menos compreendido – o que aumenta a reticência em relação à construção de uma imagem positiva do país. Então, num momento de ascenção na geopolítica mundial, a China percebeu este fato e resolveu trabalhar para mostrar a que veio – e como veio.

Só que aí não está bom, aparentemente. O próprio Nye percebeu a movimentação chinesa – e qualquer observador atento percebe – nos meios acadêmicos e midiáticos internacionais e resolveu chamar tal iniciativa chinesa de sharp power, num contraponto ao fofinho soft. Na argumentação do pesquisador, isso se dá porque há uma imposição de ideias e não a promoção do livre debate sobre a China e soaria mais como uma ameaça chinesa do que propriamente a promoção de mensagens.

Ora, trata-se apenas de malabarismos intelectuais para menosprezar outra vez a China espraiando-se pelo mundo, agora por meio de elementos culturais. Inegável que neste processo, recente, ainda há muito o que melhorar. Mas trata-se de uma tentativa de um grande projeto de relações públicas, a fim de atingir desde agentes públicos a formadores de opinião, decisores e cidadãos mundo afora. Uma indústria nascida nos Estados Unidos em 1920 e de cujos mecanismos apropriam-se dia-a-dia governos, marcas e instituições. E não há nada de errado nisso, pois por melhor que seja um trabalho de relações públicas, é papel de todos os atores sociais contestar ou duvidar das mensagens quando necessário. O que não dá é para sempre achar que a China, a priori, só impõe.

Na abertura das Duas Sessões, como são chamadas as reuniões do órgão consultivo e do parlamento chinês, que ocorrem todos os anos quase que simultaneamente em Beijing, o porta-voz da primeira sessão do 13º Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política Popular da China, Wang Guoqing, refutou as declarações acerca do tal sharp power. Segundo Wang, para os mesmos processos que as nações ocidentais se utilizam, o termo utilizado é do “soft power” ou do “smart power”. À China, sobra a alcunha do “sharp power”.

Wang afirma tratar-se de um pensamento herdado da Guerra Fria e argumenta que a China busca, como muitas das nações ao redor do mundo, participar de um processo de cooperação, trabalho conjunto e de construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade. Este último ponto é um dos pilares da política internacional anunciado por Xi para o segundo mandato.

Daí depreende-se que fofinho ou cortante, o poder chinês por meio dos ativos culturais só vai crescer. Resta saber quem terá boa capacidade de interpretação e estará pronto para abraçar mais diversidade de pensamentos, modelos e processos. À China, claro, caberá ajustar e afinar constantemente suas estratégias comunicacionais.

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Quem quiser um pouco mais sobre o tema, há um texto de 12 de janeiro neste link: “O incrível caso da imagem positiva chinesa”.

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