Uma viagem chinesa: aprendendo a ressignificar o tempo

* Texto escrito para o concurso da Embaixada da China no Brasil “Eu e a China” em junho de 2018. Uma compilação consta de edição especial da revista China Hoje publicada em 2019

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Poucas coisas são tão poderosas na vida quanto saber reconhecer prioridades e que precisamos estar sempre prontos para as mudanças. Ambos os ensinamentos eu obtive na China, país onde cheguei em uma manhã quente do verão de 2007, às vésperas da Olimpíada de Beijing de 2008 e dos 30 anos da implantação da política de reforma e abertura. Era uma época envolta em um espírito de novidade, cordialidade e transformações. Mudavam, numa velocidade impressionante, a cidade, as pessoas, o papel da China no mundo.

Passados pouco mais de dez anos daquele primeiro contato com o universo chinês, o ritmo das mudanças não arrefeceu, e tanto a sociedade, as estruturas econômicas e os cidadãos chineses seguem um ritmo acelerado de transformações. A China molda o próprio futuro passo a passo, e eis outro aspecto que marca o estrangeiro que pode viver ou trabalhar no maior país asiático: o pragmatismo. Não é exatamente a urgência que move a China, ao contrário, é o planejamento. O que dá o sentido de velocidade é o caráter pragmático com que a população encara os desafios, assim como os governos, sejam estes o central ou os locais. 

A política de portas abertas, como também é chamada a reforma e abertura, foi aprovada na Terceira Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, que ocorreu de 18 a 22 de dezembro de 1978. No dia em que o encontro acabava, eu fazia um ano de idade. Apesar da coincidência das datas, até os 29 anos, pouco sabia sobre o país asiático. Convidada a ir trabalhar na agência de notícias Xinhua, em Beijing, tive dois meses para deixar o emprego onde estava, em Porto Alegre, e embarcar até o outro lado do mundo. Algumas leituras e poucos vídeos na internet sobre a China, seu cotidiano e sua história foi o que consegui obter para tentar um pouco de familiaridade com o país que em breve eu chamaria de casa. Desde então, graças ao meu trabalho, sigo diariamente as notícias sobre a China, não só pela Xinhua, mas em inúmeros portais, revistas e jornais pelo mundo inteiro. Percebo, inclusive uma cobertura mais densa e mais séria sobre a China no Brasil, ainda que, paradoxalmente, não haja entre os principais veículos de comunicação brasileiros um que mantenha correspondente fixo em alguma cidade cidade chinesa. Na época pré-Olimpíada, esse número alcançou cinco profissionais simultaneamente. 

A entrada da Cidade Proibida, em Beijing

Quando cheguei a Beijing, logo no primeiro sábado de folga, decidi conhecer a Praça da Paz Celestial, ou Tian’anmen, o centro político do país e de onde eu avistaria o Grande Palácio do Povo, o Museu Nacional, o Portão Qianmen, o Mausoleu de Mao Zedong, a entrada da Cidade Proibida e o icônico retrato do fundador da República Popular da China, pendurado em frente ao portão que dá nome à praça, o Portão da Paz Celestial. Parece que foi ontem, mas era um tempo que os telefones não eram smart, não falávamos em aplicativos e sequer o aparelho servia para também tirar fotos. Muito menos teria por meio do aparelho indicativos de localização e de alternativas de transporte entre um ponto e outro. Fui a uma banca de revistas e jornais próximo ao apartamento onde morava, na região de Jianguomen, e comprei um mapa, destes em papel mesmo, para entender um pouco sobre onde eu estava, para onde eu queria ir e como chegar lá. Ao menos para ajudar, o mapa estava em inglês, pois eu não tinha qualquer intimidade com o mandarim. Tentava falar “xiexie”, que é “obrigada”, “ni hao” (um “oi, tudo bem?”) e “duibuqi “(desculpa), quando necessário, mas mesmo expressões tão singelas muitas vezes eram ignoradas pelo ouvinte. A língua escrita era uma completa desconhecida e, de fora dos estabelecimentos, eu sequer sabia identificar o que era uma farmácia, um restaurante ou uma funerária. Quase tudo era um grande mistério a atiçar a curiosidade.

Mas afora a língua, os primeiros passos até que tinham sido fáceis – além das mímicas,  apontar o dedo para o que se quer e refutar o que não se quer ajuda muito. Além disso, é incrível como em momentos em que a comunicação fica quase impossível, sempre aparece alguém que fala uma língua que pode ajudar o estrangeiro, como o inglês, o espanhol e até o português. Ou como a troca de olhares entre completos desconhecidos sem conseguirem expressar palavra também funciona. Há uma amabilidade entre os chineses, sejam das cidades ou dos interior, que permite que as coisas aconteçam.

Em quatro dias na capital, já havia acumulado um número razoável de conclusões: a proporção da cidade é outra em comparação àquelas que eu conhecia no Brasil. Tudo parece gigante. As avenidas, os monumentos históricos, os prédios do Governo. Até as placas e os sinais de trânsito têm outra dimensão.

A China, aliás, é imensa. E nessa imensidão, mudam-se os costumes e usos entre uma cidade e outra – então o que vale numa, não faz sentido em outra algumas centenas de quilômetros depois. Mas duas dicas podem ajudar quem viajar a Beijing e a Shanghai. Na capital, as placas brancas com nomes de ruas e avenidas em letras vermelhas estão posicionadas no sentido leste-oeste. As verdes com letras brancas indicam que trata-se do sentido no norte-sul. Isso é muito válido porque a localização da cidade se dá a partir dos pontos cardeais. Para Shanghai, também há uma dica esperta, pelo menos para quem estiver na região de Puxi, a região a oeste do rio que corta a cidade, o Huangpu: a maioria das ruas do sentido leste-oeste têm nome de cidades chinesas. As que vão do norte ao sul, levam nomes de províncias e de regiões do país. Tudo bem, em Shanghai é preciso ter certo conhecimento da geografia chinesa e dos nomes locais para que tudo isso faça sentido. Não que eu soubesse nada disso naquele momento, a menos de uma semana da chegada à China.

Ainda assim, novata, a minha coleção de saberes pelo menos sobre Beijing ainda continha os seguintes aspectos: a cidade era barulhenta, o transporte barato, a comida idem, o povo muito solícito em ajudar – seja em que idioma fosse, ou mesmo por meio de mímicas tortuosas, mas eficientes -, o verão é quente (é fácil o termômetro bater os 38ºC), o clima bem seco e a certeza de que o inverno seria de lascar: as temperaturas entre dezembro e fevereiro seriam, via de regra, sempre abaixo de 0ºC. Com requintes de frialdade beirando os -15ºC, -20ºC. E com vento. Sem neve, ou pouca neve, pois o clima é seco. Engraçado que estas primeiras percepções nunca mudaram.

O antigo bilhetinho de metrô em Beijing – hoje, só o smartphone já garante a viagem

Mas voltemos à primeira aventura turística sozinha por Beijing, uma cidade, aliás, super segura, seja de dia ou à noite, para homens e mulheres. Embarquei no metrô, comprando o tíquete que naquela época ainda era em papel, uma tira fina e retangular branca com letras azuis que me garantia a corrida. Nem se pensava em usar um cartão eletrônico recarregável para facilitar o fluxo e muito menos pagamento via código QR. Desci na estação Tian’anmen East, a porção a leste da praça e uma parada da Linha 1, a histórica rota que corta a cidade de Leste a Oeste e foi inaugurada em 1º de outubro de 1969, nos 20 anos da chegada de Mao ao poder. Em 2007, a Linha 1, ou Vermelha, era parte de um complexo de quatro linhas de metrô que prestavam serviços regulares em Beijing. Só para contextualizar, atualmente são 22 linhas, em mais de 610 quilômetros de trilhos. 

Ainda que eu já estivesse na capital havia quatro dias, foi quando enxerguei a praça e o retrato de Mao que eu senti que realmente tinha ido morar em outro país, cercada de pessoas com costumes diferentes dos meus, de uma história e de subjetividades culturais das quais eu não fazia ideia. Uma multidão com máquinas fotográficas nas mãos apontando para os diversos prédios históricos da praça, feliz em estar ali, muitos protegidos por sombrinhas coloridas, no calor escaldante do verão pequinês. Eu não era uma daquelas pessoas, e certamente a emoção deles e a minha eram muito diferentes. Eles estavam reconhecendo parte de sua história.

Eu queria dar início a novos sentidos que passariam a fazer parte do meu trabalho e do meu cotidiano. Foi a partir dali que a minha vida passou a ser pontuada diariamente pelo que ocorre na China e eu me tornaria mais do que uma curiosa, uma observadora sobre aquela sociedade.

E não era apenas por dever profissional. Foi por um desejo mesmo de tentar entender um novo universo, desejo que se mantém, até porque é um exercício rotineiro, dadas todas as peculiaridades chinesas e a rapidez com que tudo muda. 

Recém chegada à China, em foto na região de Houhai, em Beijing

Cheguei à China contratada para trabalhar como editora de língua portuguesa na agência Xinhua, que oferecia serviços noticiosos em seis línguas estrangeiras: inglês, espanhol, russo, árabe, francês e português. Hoje, a agência também produz notícias em japonês. O mandarim, obviamente, também tem conteúdo, a maioria, inclusive. A agência cobre notícias da China e do mundo, e em relação à cobertura chinesa, produz material sobre diversos aspectos: saúde, educação, cultura, esportes, negócios, economia, política. Mas em um país cujo motor de mudanças era econômico acabou por acender na jornalista de formação o desejo de interpretar melhor aqueles fenômenos que catapultavam a China a postos cada vez mais relevantes na geopolítica mundial. Na volta ao Brasil, em 2013, nunca deixei de acompanhar a China, e a jornalista dividiu espaço com a porção acadêmica: ingressei no mestrado em Economia justamente para pesquisar o desenvolvimento chinês. A perspectiva que se tem para um brasileiro, também de um país em desenvolvimento, é interessante, pois se podem construir nexos comparativos e analisar semelhanças e diferenças ora nas estruturas, ora nos processos de Brasil e China. 

Claro que o vigor das mudanças chinesas diferencia o país asiático ao do brasileiro. Nestas quatro décadas, a China consolidou a posição de segunda maior economia do mundo, com um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 12,8 trilhões, atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, o país asiático tem as maiores reservas internacionais do globo, que ultrapassam os US$ 3,1 trilhões, e contribuiu em 2017 com cerca de 30% do crescimento global. O PIB per capita para este mesmo ano é de US$ 8.123,00, o 60º no ranking mundial: um incremento substantivo comparado ao 120º lugar que a China obteve em 1978. Tais avanços são ainda mais impressionantes se consideradas as metas que o Governo havia proposto em 2000 tendo 2020 no horizonte, momento para o qual planejava o PIB na casa dos US$ 4 trilhões e renda per capita de US$ 3 mil. Já em 2010, com um PIB per capita de US$ 4,2 mil, a China dava o segundo salto histórico daquela década ao ingressar na faixa de país de renda média superior, pela classificação do Banco Mundial. O primeiro havia sido em 2002, quando migrou da baixa renda para renda média inferior (PIB per capita entre US$ 1 mil e US$ 4,2 mil). Um ano antes, em 2001, a China havia ingressado na Organização Mundial do Comércio (OMC). Quando se pensa na relação com Brasil, esta década também é significativa, pois em 2009 a China passou a ser o maior parceiro comercial brasileiro. 

Estação de metrô de Jianguomen, que liga as linhas 1 e 2

A década passada teve ainda a turbulenta crise financeira global de 2008, cujo início tem origem nos Estados Unidos. A fim de debelar os efeitos de um problema que se alastrava pelo mundo, a China lançou um pacote de estímulo governamental da ordem de US$ 685 bilhões tendo em vista, prioritariamente, projetos de infraestrutura – que tinham entre os objetivos, para além de estimular a economia local, incrementar a renda dos chineses e, assim, estimular o consumo. Tal processo foi importante inclusive para o Brasil, que viu as vendas de seus principais produtos à China não só não terem quedas, mas aumentarem em volume e preço. Foi o caso do minério de ferro, do petróleo e da soja.

É neste período que começam a surgir com mais vigor investimentos diretos chineses no exterior – o próprio Brasil entra no foco das empresas chinesas, um fluxo que só aumenta e amplia os setores: de energia à infraestrutura, passando por serviços financeiros e de novas tecnologias, incluindo mobilidade e a nova economia digital. 

No caso do Brasil, a cooperação ainda se dá no ambiente multilateral, em mecanismos tais como o BRICS, que além de China e Brasil, reúne Rússia, Índia e África do Sul e é o moto para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, ou NDB (New Development Bank), que em 2019 ganhará filiais no Brasil, depois da implantação da sede em Shanghai. Trata-se de uma ação conjunta entre os cinco países dos BRICS, cuja formatação teve início, auspiciosamente, na Cúpula dos BRICS de Fortaleza, em 2014. O Brasil já entrou também nos planos da poderosa Iniciativa do Cinturão e Rota, uma estratégia de financiamento chinesa que visa elevar a qualidade da infraestrutura, principalmente, em diversos países ao redor do mundo. A obra inaugural de tal iniciativa no Brasil é o Porto de São Luís, no Estado do Maranhão, e que deverá servir para escoar óleos e grãos, o caminho mais perto do Canal do Panamá no Brasil, com um calado natural capaz de receber grandes navios. O aporte e a tecnologia para a construção do porto, cuja obra deve estar finalizada até 2022, são chineses. 

Mas o mais interessante de acompanhar na China não são apenas os feitos na economia, e sim aqueles que têm a ver com a qualidade de vida da população. A expectativa de vida dos chineses é um bom exemplo, pois saltou de 44 anos na década de 1950 para 68 anos em 1980 para 74,83 anos em 2010 e, finalmente, para 76,5 anos em 2017, segundo a Comissão Nacional de Saúde e Família. Quando o tema é educação, também os resultados são animadores. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 99,64% da população entre 15 e 24 anos era alfabetizada em 2015, taxa que caía para 73,91% se considerados aqueles com mais de 65 anos. A permanência média do aluno na escola é de 13,5 anos e 97,93% dos que terminam o Ensino Fundamental passam ao Médio. Dados do governo central indicam que a China tinha cerca de 37 milhões de alunos em 2.880 universidades em 2016, taxa de matrícula de 42,7%. Em 1949, eram apenas 0,26% de matriculados e em 1978, 1,55%25. Embora o sistema universitário seja majoritariamente público, há anuidade para todos os estudantes, implantada no país em 1998 para universalizar o acesso à educação. Ainda assim, o  Governo, as próprias instituições e outros organismos concedem bolsa para alunos de baixa renda, inclusive na rede privada, que existe na China desde 1993. 

Shanghai em 2011 – vista da região do Bund para o bairro do Pudong

Enquanto eu ainda morava na China, uma mudança marcante ocorreu na sociedade chinesa. Em 2011, a China passou a ser majoritariamente urbana: 51,27% da população estava oficialmente nas cidade, segundo dados do Governo. Em 1978, quando tinha início a política de reforma e abertura, 81% da população vivia no meio rural. Interessante notar que a população atual é de 1,38 bilhão de pessoas. Em 1978, era de 975 milhões.

Era a década dos guindastes por toda a parte que anunciavam a construção de uma nova China. Ter vivido em Beijing naquela época foi incrível por experimentar um pouco destas transformações acontecendo e percebendo as mudanças no cotidiano das pessoas. A famosa Torre da CCTV, o canal de televisão estatal, sequer estava ligada nas alturas, e hoje é um marco arquitetônico do Distrito Financeiro de Guomao, cartão postal da cidade. Beijing, aliás, é um passeio no tempo. Para o turista recém chegado ou o morador estrangeiro, é um convite a diversas etapas da história chinesa, separadas por alguns quilômetros: ali se vê a Cidade Proibida, o Palácio de Verão, o Templo do Céu, o Ninho de Pássaros, a Grande Muralha, quando o passeio vai até os subúrbios da cidade. É um manancial de informações que se traduzem também na arquitetura.

Mas a infraestrutura é outro ponto que marca. O trem rápido é um belo exemplo. O primeiro na China também foi inaugurado quando eu já estava vivendo no país, pouco antes da Olimpíada de 2008. A primeira linha tinha cerca de 70 quilômetros e transportava os passageiros de Beijing a Tianjin, cidade portuária vizinha e que receberia alguns jogos de futebol naquela edição olímpica, daí a linha ter sido inaugurado um pouco antes dos jogos, que foram abertos em 8 de agosto de 2008 – uma sucessão de números 8 que, logo aprendi, remetem à prosperidade devido à pronúncia “ba”, semelhante tanto para “oito” quanto para a “prosperidade”.  Pouco depois, seriam inaugurados os trens rápido para Shanghai, com paradas em outras estações pelo caminho, e a China encurtava suas longas distâncias. Em uma década, o país já construiu e botou em operação 25 mil quilômetros de ferrovias para tara trens de alta velocidade, que viajam a pelo menos 300km/h, respondendo por dois terços do complexo mundial deste segmento, segundo a Corporação de Ferrovias da China. Os novos modelos de trem já circulam a 350km/h. Se contabilizadas todas as ferrovias na China, são mais de 127 mil quilômetros de trilhos, tanto para o transporte de passageiros quanto para o de cargas. Só um exemplo da rede logística do país, que tem uma gama potente em todos os modais de transporte.

A China projeta 30 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade ainda nesta década

Se nos anos 2000 os guindastes é que chamavam a atenção pelas cidades chineses, agora são os smartphones como meio de pagamento que saltam aos olhos e dão pistas sobre mudanças estruturais da economia chinesa, em que serviços e consumo ampliam a contribuição no crescimento. A sociedade que praticamente já abandonou o papel-moeda enriqueceu.

Para comprar uma simples garrafa de água em uma banca de esquina ou as passagens aéreas para as férias da família, tudo é feito via celular, dentro de aplicativos que que eliminam a necessidade de utilização de papel ou de cartões. Muitas vezes, esses valores nem são transacionados via sistema tradicional bancário, num fenômeno recente chinês que também provocou a inclusão de mais gente nos serviços financeiros. Tudo isso graças a uma rede 4G potente que chega a todos os recantos do país e a uma popularização da internet: são mais de 52% dos chineses conectados, o que ultrapassa os 750 milhões de usuários, quase três Brasis inteiros ligados. Como a taxa de penetração da internet ainda é relativamente baixa, tais serviços de pagamento só devem ganhar mais e mais popularidade.

Se já foi espantoso perceber uma mudança tão marcante em uma década na China, quis entender o que havia de diferente antes de eu chegar ao país, nas décadas de 1980 e 1990. Com a ajuda dos amigos chineses, busquei formar imagens daqueles tempos em que não vivi por ali e nunca havia visitado. Quem viveu conta que nos anos de 1980, as bicicletas eram o retrato de uma China que se movia rumo ao crescimento. Na década seguinte, milhões de migrantes rurais embarcavam nos trens abarrotados à procura dos empregos nas fábricas que ajudaram a revolucionar a manufatura e a sociedade chinesas, implantadas nas Zonas Econômicas Especiais do país. As quatro primeiras estavam nas cidades de Shenzhen, Guangzhou e Shantou, na província de Guangdong, e Xiamen, na província de Fujian. Na década de 1990, o modelo das Zonas Econômicas Especiais – que garantia mais autonomia ao governo local e políticas especiais para a atração de investimentos estrangeiros – se espalhou por outras 14 cidades, entre as quais Shanghai, antes de passar a valer em todo o país. 

Era um período em que o governo já olhava também para a inovação, hoje tido como um dos principais motores da economia atual, aparecendo em discursos do presidente Xi Jinping – o que inclui a primeira fala de um presidente chinês no Fórum Econômico de Davos, ocorrida em 2017. Inovação está inclusive no bojo da política Made in China 2025, que refere-se a uma política de incentivo às indústrias chinesas para conquistar excelência em 10 setores de manufatura avançada, apostando (e investindo) em produção nacional. Os eleitos são tecnologia de informação e inteligência artificial, robótica, aeroespaço e equipamentos, tecnologia naval e equipamentos, trens de alta velocidade, veículos e equipamentos movidos a novas energias, geração de energia, biofármacos e produtos médicos e implementos agrícolas. Neste guarda-chuva de manufatura tecnológica está também uma política ambiciosa de conteúdo nacional – e de campeões nacionais – a fim de que a China produza até 2025 70% do conteúdo. Nos tempos de Deng Xiaoping, o plano era garantir o que chamou de As Quatro Modernizações: uma política que singifica aporte para agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional.

Enquanto a China se move a passos largos, o estrangeiro recém chegado, como eu, tem outras preocupações bem mais triviais no início da vida na China.

–     Ā, á, ǎ, à – diz a professora, a Fang Fang, sentada na minha frente, no apartamento em que eu morava em Jianguomen e onde passei a ter aulas particulares já na segunda semana de China.

–     Repete – pede ela, falando em português.

–     Ā, á, ǎ, à – só que totalmente diferente, repito eu.

Assim começa uma aula de mandarim quando o pobre aluno engatinha nos quatro tons que, somados ao neutro, compõem a melodia do idioma. O primeiro é algo contínuo, o segundo algo surpreso, o terceiro talvez indeciso, o quarto impositivo. O neutro é neutro. O único problema é que em geral tudo se confunde pouco tempo depois, e a adição dos tons a fonemas até então desconhecidos não ajuda na hora de abrir a boca.

O mandarim é o idioma mais falado no mundo. Desde o início do século passado, foi padronizado e eleito como oficial na China (pode-se usar chinês como sinônimo para mandarim). Tem origens no dialeto de Beijing, seguindo a estratégia dos  funcionários imperiais das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911), que o utilizavam para poderem se comunicar.

É que no país, diferentes regiões têm diferentes dialetos, muitos dos quais ininteligíveis para um habitante de outro local. Na China, a língua oficial é chamada de Putonghua (普通话), ou “idioma comum”. Internacionalmente, ficou conhecido como mandarim, uma palavra portuguesa que deriva do sânscrito “mantrin” (ministro ou conselheiro), utilizada pelos portugueses para se referirem aos burocratas imperiais chineses – ou seja, aqueles que primeiro lançaram mão da estratégia de utilizar um dialeto único para garantir a comunicação.

Mandarim poderia ser simples, são cerca de 400 verbetes monossilábicos, bem menos do que os 8 mil encontrados no inglês, por exemplo.Tais verbetes são o resultado da combinação entre 21 sistemas iniciais e 44 sistemas finais na composição das sílabas (como exemplo, zh + ang =zhang). Mas justamente por serem poucas, as sílabas com as mesmas séries de vogais e consoantes apóiam-se nas estruturas de tons para serem diferentes e, num idioma repleto de palavras monossilábicas, tal requinte é essencial para oferecer diversos sentidos ao que poderia ser a mesma coisa. Em vez de simplificar, complica. Um deslize e você troca totalmente o sentido da frase. Ou pior, diz coisa alguma que talvez você não queira. Acredite ou não, mas a sequência “mā mà mă ma?” pode significar “sua mãe repreendeu o  cavalo?”, desde que pronunciada nos tons corretos.

Se já parecia complicado, lembre-se que associação do fonema e do tom a um caractere, que os livros insistem em mostrar como descendentes de algum símbolo mais comum à nossa imaginação, é essencial para ler e escrever. Bate o desespero. Para quem aprende desde criança, há ideogramas tão óbvios quanto o 火, ou huo, para fogo. Afinal, você vê a base da fogueirinha e o fogo crepitando, não é mesmo? Para apagar o fogo, vamos usar a água: 水, ou shui. Nem preciso explicar, pois é facílimo perceber que trata-se do curso de um rio, em que tanto o traço da esquerda quanto os dois traços da direita simbolizam a correnteza, não é? Toda essa lógica associativa pode funcionar na nossa tenra idade, mas perto dos 30, quando cheguei à China e comecei a estudar o mandarim, ficou difícil.

Chuan, ou 串, quer dizer espetinho ou churrasquinho: gráfico, não?

O único caractere óbvio para mim é o de churrasquinho, presente nas esquinas mais populares da sua cidade chinesa preferida em neons vermelhos piscantes, o 串, ou chuan. São dois pedacinhos de carne no espeto, não há dúvidas. A prova viva – e uma das únicas para mim – de que os chineses são pragmáticos. Claro, é um pouco de brincadeira com uma das línguas mais bonitas de se aprender, justamente porque não é apenas som, a escrita remete a significados. Esse momento de analfabetismo é também lúdico. Existe um mundo inteiro ali à sua frente e, como somos adultos, depende da gente querer desvendá-lo ou não. Depende de nossa dedicação, vontade, tempo. Hoje, com tanto aplicativo para lá e para cá, dá pode terminar com a brincadeira ao fotografar uma fachada hipotética, pedir para o smartphone reconhecer os caracteres e depois traduzi-los. Mas quem quiser ser analógico e infantil, pode visitar ou morar na China. E vivenciar de novo o aprendizado de fala, leitura e escrita. Eu recomendo.

Aliás, aprender o tempo inteiro é o que mais acontece ao estrangeiro na China. Acredito inclusive que os tomates sejam chave na compreensão de que a visão de mundo dos chineses difere e muito da dos ocidentais. E acredito que achar que você já está adaptado é o pior erro da fase de adaptação na China (fase esta, aliás, que não termina nunca).

Era fevereiro de 2008, meus irmãos Cristiano, Maíra e Rafa – uma destas amigas que chamamos de irmã por afinidade e amor porque as famílias são amigas desde sempre – resolveram me visitar. A escolha da data tinha muito a ver com o fato de eu provavelmente ficar apenas um ano na China (deveria voltar em junho daquele ano) e de eles terem este período para tirarem férias juntos. Porque, diga-se, a época não era a ideal. Em Beijing, pegamos temperaturas próximas a -10ºC. Em Shanghai, a segunda cidade a ser visitada, os termômetros timidamente ultrapassavam o 0ºC.

Visitas no inicinho de 2008, no inverno chinês

Num dia em que visitávamos as lojas de Xidan, bairro de compras popular entre os pequinenses, mas pouco desbravado pelos estrangeiros, especialmente os turistas, fui tomada por um impulso e pedi ao taxista, ao passar em frente a um autêntico restaurante local e simples:

– Por favor, pare agora.

Descemos todos, meus irmãos crentes de que havia me dado conta de algum restaurante típico e famoso, destas jóias que só os moradores tomam conhecimento. Mal eles sabiam que o máximo que eu havia conseguido era ter identificado os caracteres de jiaozi (饺子), uns pasteizinhos no vapor cujos recheios podem variar bastante. O tradicional é de porco com cebolinha.  Aliás, talvez a tradução mais eficaz para jiaozi seja ravióli. O prato é típico da região nordeste da China e um dos meus preferidos. É preparado pelas famílias para celebrar o ano novo chinês e oferecido aos viajantes antes de eles partirem. Marcam a despedida e ensejam boa sorte. Entramos no restaurante.  

Como única detentora da arte de ler os caracteres no grupo – orgulhosa dos meus parcos oito meses de aulas esparsas – enfrentei bravamente o cardápio todo em mandarim. Não hesitei ante o garçom, cuja única língua era mesmo a local. Apontei para alguns itens em que apareciam os caracteres para tomate, para tofu e para frango. Ou seja, três recheios diferentes que eu já havia provado e que davam ótimos jiaozi. Fiquei levemente injuriada com o fato de achar ter entendido que o garçom havia perguntado:

– Mas você não vai pedir jiaozi?

Mesmo sem compreender patavina em chinês, meus irmãos também apostaram na fala reproduzida aí em cima. Do alto do meu status de adaptada, garanti:

– Relaxem, a comida é ótima, virá tudo certo.

A primeira bola fora foi um prato frio de tiras de tofu com muita cebola e salsinha. Nada próximo a um pastelzinho. Ou a um ravióli. Tratava-se, tive de admitir, de uma salada de que até gosto bastante, mas que com a temperatura negativa da rua, não era exatamente o que pretendíamos comer. Algo quente seria mais shufu… ou agradável (gente adaptada adora as gírias locais).

Enfim, o prato seguinte rendeu fotos impagáveis: uma porção generosa de pescoços de galinha temperados com muito, mas muito alho. Também não havia por ali traços de pasteizinhos, tampouco de um prato quente. E, caso alguém não saiba, alho é paixão chinesa. Está presente do café da manhã ao jantar. Impressionante como gente adaptada entende dos hábitos gastronômicos dos moradores…

O terceiro pedido deu conta não só do meu desastre enquanto leitora de mandarim, mas de um choque cultural, abismal e intransponível para a maioria dos brasileiros com quem já almocei ou jantei na China: eis que chegou à nossa mesa um prato com tenras fatias de tomates sobre as quais repousava uma gentil montanha de açúcar. Quanto mais tomate, mais açúcar. Quanto mais brasileiro, mais tudo isso continua no prato.

Acusado o golpe definitivo e minha derrota total, rendi-me, mas não sem antes pedir uma porçãozinha de jiaozi para que os visitantes pudessem experimentar, desta vez escolhendo as opções na página certa do cardápio, cujo cabeçalho ostentava os mesmos caracteres que eu havia visto na fachada, que de repente escaparam à minha compreensão.

Mas este trecho curioso e gastronômico que começou com duas verdades, encerra-se com outra revelação, uma dica e a moral da história. Revelação: na China, tomate-cereja é fruta. É oferecido no café da manhã ou depois das refeições na bandeja junto a melão, melancia e uva, por exemplo. Dica: Tomate com açúcar é quase impossível para um brasileiro, mas tomate com ovo é divino. Trata-se de uma omelete bem típica e com alguns temperinhos bem locais que pode ser comida pura ou outras vezes serve para acompanhar arroz ou macarrão. Para pedir, ensaie: xīhóngshì chǎo jīdàn. A pronúncia aproximada é xirrônxitchaudjidán. Se complicou, leve esse texto até o restaurante chinês e aponte aqui à 西红柿炒鸡蛋. Moral da história: Antes de imaginar que a comida chinesa estranha esteja restrita à carne de cachorro ou insetos, saiba que estes não são ingredientes comuns, que encontram-se em qualquer restaurante. Aliás, são condimentos raros e em muitos casos oferecidos em estabelecimentos voltados aos turistas. O que espanta mesmo são misturas inusitadas ou preparos desconhecidos. Em geral, quando estranhamos a comida, é porque achamos que falta sal, sobra alho e óleo e que houve uma quebra no suprimento mundial de pimenta depois da quantidade depositada em nosso prato. De resto, é só a soma do conhecido ao surpreendente. Tipo, imagine um tomate cortado em quatro partes. Imagine uma porção generosa de açúcar. Ok, agora jogue a porção sobre os tomates. E aí, você toparia o desafio?

Para além das brincadeiras – e das saias justas que volta e meia tanta diferença cultural e um idioma absolutamente impõem – vivenciar a China e buscar compreender o que ela tem a ensinar nos mínimos detalhes significa que o país, sua gente e sua cultura acompanharão para sempre aqueles que se abrem para esse novo mundo.

Aprendi com a China a perceber o tempo de uma outra forma. Para vivenciar nosso tempo, é preciso responsabilidade. Para moldá-lo, é preciso planejamento e pragmatismo. Poucas coisas são tão poderosas na vida quanto poder reconhecer o que importa e estar apto a mudanças. 

Estudar mandarim poderia ser complexo o suficiente considerados os esforços para combinar tons e novos fonemas aos caracteres. Mas há mais. Apropriar-se do idioma também faz pensar sobre a lógica chinesa e, por vezes, provoca a filosofia.

Templo Shaolin, na província de Henan, há séculos mantém a cultura do kung fu

Certa feita, a Gisela, minha terceira professora de mandarim, ensinava algo tão trivial quanto as palavras para:

Anteontem – Ontem – Hoje – Amanhã – Depois de Amanhã

À linha do tempo aí acima, logo acrescentou os equivalentes em mandarim:

Qiantian (前天) – Zuotian (昨天) – Jintian (今天) – Mingtian (明天) – Houtian (后天)

Atenta às lições anteriores, percebi que havia duas incongruências, as pontas da linha do tempo estavam trocadas na versão chinesa. Afinal, o “qiantian (前天)” para “anteontem” trazia o caractere 前, ou “qian”, que significa frente. O “houtian (后天)” e seu 后, ou “hou”, a palavra para “atrás” só podia estar errada. Afinal, imagine a minha lógica: o que está à frente de hoje é o amanhã – e depois de amanhã, por consequência. O que está atrás, ficou para ontem, anteontem.

Gisela sorriu. Parabenizou pelo fato de eu lembrar o que já havia aprendido, mas garantiu que ela estava certa. Sem mais explicações. Para mim, faltava algo a ser esclarecido, afinal como podia a tradução literal para “anteontem” ser “o dia à frente”? E para “depois de amanhã”, o “dia atrás”? O movimento temporal parecia estar invertido. E tudo bem que haja diferenças, mas seriam estas tão grandes?

Sim, elas são. Para os chineses, não há dúvida alguma sobre quão corretos estão tais conceitos, e o porquê é tão singelo quanto filosófico: o passado está à nossa frente – e daí “Depois de Amanhã” ser o “Dia Atrás”, numa metáfora de que o porvir é resultado de nossas ações e reações ainda que, por ser futuro, não o vemos, não o conhecemos. O bom é que na China esse futuro sempre tem suas raízes no passado, e está sempre em mutação.

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