Visita presidencial brasileira à China resulta em trocas de afagos

A noite da sexta-feira em Beijing terminou com um encontro entre os presidentes chinês e brasileiro, Xi Jinping e Jair Bolsonaro. Recepcionado no Grande Palácio do Povo, o peselista retribuiu a cortesia com um abrigo do Flamengo, a que atribuiu o título de melhor time da atualidade no Brasil.

Para além das fotos, a bem da verdade é que os chineses acabaram por receber outras cortesias. Uma delas foi a promessa de isenção de vistos para os chineses em viagens de negócio ou turismo ao Brasil, um mecanismo que, segundo a proposta, não preveria a reciprocidade. Vale dizer, no entanto, que os brasileiros em trânsito podem permanecer em diversas cidades chineses por até 144 horas (seis dias), entre as quais Beijing e Shanghai, e por até três meses na província de Hainan. Nesta última, o governo chinês quer promover maior abertura comercial. Ambas as isenções, no entanto, valem para diversos países e o beneficiário não pode deixar a região e ou cidade onde recebeu o visto.

Feitas tais explicações, pode-se dizer que este foi o primeiro anúncio prático da visita, ainda que não tenha entrado em vigor. A declaração conjunta entre Brasil e China divulgada após o encontro dos dois presidentes não mostra nenhuma parceria concreta, apenas aponta direções, muitas delas em consonância com o discurso chinês de uma globalização para a promoção de benefício de todos e da manutenção e do fortalecimento do sistema multilateral, ali expresso por meio do reforço a mecanismos como o G-20, a Organização das Nações Unidas (ONU) e os BRICS, que além de Brasil e China, reúne também Rússia, Índia e África do Sul.

No item 6 da declaração (cuja íntegra pode ser encontrada aqui), um afago aos esforços chineses em sua diplomacia internacional: ao mesmo tempo em que a China formalmente demonstra o apoio ao Programa de Parceria de Investimento (PPI) brasileiro – que soma 114 projetos, como aeroportos, ferrovias, autoestradas, portos, mineração, petróleo e gás, avaliados em US$ 317,5 bilhões – o Brasil apoia a “Iniciativa do Cinturão e Rota”. Tal iniciativa, que não é exatamente familiar a muitos e para outros atende pela alcunha em inglês, BRI (Belt and Road Initiative) compreende um esforço de Beijing para ampliação de infraestrutura física e digital no mundo, a partir de parcerias com países, o que envolve também financiamento. É, em certa medida, uma ferramenta poderosa para ampliação da atuação global chinesa. Para usar analogias tão em voga na atual gestão brasileira, poderia-se dizer que PPI e BRI, caso estivessem no Tinder, teriam dado um super match.

Alguns anúncios que eram esperados nesta visita, como mais frigoríficos habilitados para vender carne à China, não ocorreram. A única notícia neste sentido foi uma JV entre a brasileira Minerva e o chinês Joye Foods. Os ministros que acompanharam a visita também assinaram alguns protocolos – envolvendo a comercialização de carne processada à China, de farelo de algodão para ração e outro relativo a energias renováveis. Foram oito protocolos no total, alguns envolvendo trocas aduaneiras e de pesquisa.

Embora tenham comemorado o volume de negócios entre os dois países, que em 2018 superou os US$ 100 bilhões, não houve novos acordos específicos – pelo menos, nada divulgado nos canais oficiais de brasileiros e chineses. Talvez a ideia seja deixar tais anúncios para a visita que Xi fará a Brasília em meados de novembro, quando o Brasil sediará a Cúpula dos BRICS. Seria um momento para celebrar o multilateralismo e, ao mesmo tempo, reforçar a parceria sino-brasileira, ainda que, pelo que se desenha, esta seja orientada pela China. Os países, inclusive, afirmaram na declaração conjunta que é necessária a maior presença de nações em desenvolvimento no Conselho de Segurança da ONU. A China já está lá. Para o Brasil, seria um pleito antigo, com um toque sutil de possível apoio chinês.

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